O mundo está ficando chato -sqn

A coluna Décimo Primeiro Dedo é publicada quinzenalmente às quintas. 

O mundo está ficando chato -sqn

Procure. Em qualquer polêmica. Da mesma família do não-tenho-nada-contra-tenho-até-amigos-que-são, do mesmo diretor de sou-contra-tudo-isso-que-está-aí, do mesmo escritor de isso-não-é-natural, primo carnal de mas-eu-tenho-direito-de… sim, minhes amigues!, o famoso O MUNDO ESTÁ FICANDO CHATO.

hahaha sqn

Só que não.

Não é que o mundo está ficando chato, é que você, acostumado com o discurso ignorante, agora tem que PENSAR (olha só que loucura), pensar no que você vai falar. Sim!

(Ignorante sim. No melhor sentido de “aquele que ignora”, que ignora o diferente de si, que ignora tudo que está além da sua confortável bolha pessoal e social, que ignora, com a sua indiferença, os absurdos do mundo, esse bicho tão mal.)

E não é só isso!

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Amigue, senta aqui, vamos conversar. Estamos num momento de transição cultural foda.

Não tá sabendo? Não se ligou nos paranauê? Acha que Foucault é um novo energético pra tomar na balada?

Olhe para os beijos gays (male male ou não) das novelas, olhe pro cinema e seu icônico James Bond abrindo mão de parte do seu sexismo tão tradicional de outrora, olhe para a editora Marvel criando times de heróis inteiros formados por mulheres e abrindo os braços as “minorias”, olhe para as pessoas discutindo Direito Público e se engajando sobre o Plano Municipal de Educação em São Paulo e tem até jovem condenada por racismo porque achou que estava no direito de ser racista no Twitter.

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O mundo está ficando melhor, porém não vivemos um paraíso, muito pelo contrário! Segundo o Relatório Anual de Assassinatos de Homossexuais no Brasil, do Grupo Gay da Bahia, somos o campeão mundial de crimes motivados pela homo/transfobia. Pois é.

Por isso mesmo, temos que continuar fazendo barulho, MUITO BARULHO. Temos que incomodar quem alinha desrespeito a direito.

As pessoas estão, beeeeem devagar, ajustando seus discursos, tomando consciência, de uma vez por todas, de que todo o papo de “normalidade” e “naturalidade” é a repetição de um eco burro e caduco de gerações e gerações de pessoas que não precisavam se preocupar com o diferente ou simplesmente não tinham a oportunidade de enxergar que somos realmente todos diferentes em nossa igualdade.

Existe uma revolução em processo e ela não precisa ser necessariamente televisionada (mas está sendo), ela não precisa ser glamorosa (mas, em alguns momentos, está sendo). Quer você queira ou não, beeeeem devagar, as instituições começam a perceber que um novo tempo chegou, que não se pode mais tratar a diversidade com miopia e anacronismos.

Apesar do processo não ser homogêneo, ele precisa ser duradouro.

O mundo não está ficando mais gay ou mais bi ou mais lésbico ou mais negro ou mais asiático ou mais islâmico ou mais nada, o mundo continua “o mesmo”, só que ~diferente~.

A diferença é que os grupos que são minoritizados por uma maioria inventada/autoproclamada/empoderada estão sendo percebidos economicamente e, a reboque, politicamente. E isso é ótimo!

Mesmo no meio do chorume infinito do dia a dia, o mundo está ficando um pouquinho mais legal. A fiscalização do cu alheio está saindo de moda (mas, vamos combinar, dar conta da vida sexual alheia, sob quaisquer justificativas, nunca fez o menor sentido).

A insanidade das opiniões puritanas que querem apitar o comportamento do outro esbarra numa questão muito simples: a legislação.

Hmmm... essa barba me deixou meio gay.

Hmmm… essa barba me deixou meio gay.

Porque você, que é preconceituoso, vai ter que morder a língua todas as vezes que for praticar o seu direito a sua ignorância. E você vai assumir as consequências dessas práticas. Mesmo que sua religião pregue a intolerância acima da lei, mesmo que sua “educação” tenha lhe ensinado o contrário, mesmo que “o mundo tenha sempre sido assim”, cada vez menos (que bom!), haverá espaço para justificar preconceitos e defender tradições absurdas.

É, amigue, apesar dos radicais de qualquer lado serem chatos pra caralho, a zona cinza está cada vez mais colorida. Apesar da agenda LGBTQX ser complexa e, perdoem o trocadalho, diversa, não dá pra sentar e chorar. E nem dá pra pirar na militância a ponto de emular a intolerância do outro. Sejamos ixpertos.

Chega de mundo polarizado entre dois extremos, chega de dividir a vida entre os “bonzinhos” e os “mauzinhos”. Felizmente, somos farinha do mesmo saco. Mas com farinha a gente faz tanta coisa diferente, não é mesmo?

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Na próxima polêmica, no próximo chilique nas redes sociais ou no papo do happy hour, não cometa o equívoco de falar que o mundo está ficando chato. O mundo está mudando. E você não quer dar uma de retrógrado achando que nada pode mudar, né, amigue?

Mudar dói, mas, como tudo na vida, primeiro dói, depois fica gostoso.

Pronto, amigue, agora pode dar bom dia no grupo da família no WhatsApp.


 

ATUALIZAÇÃO às 15:05.
(Dicona do Eduardo Araujo.) Trecho da palestra da Marcia Tiburi no evento do SESI, InteligenciaPontoCom.

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