Florido La, Jardim Selvagem para o Feminino

"Conchas"

Florido La, multiartista, multimídia, multimulher, potência pensante.

Quando vi as obras dessa moça pela primeira vez, me senti com energia e entusiasmo ao perceber que mais mulheres estão pintando mulheres em um impulso de total selvageria, libertinagem e libertarianismo, pegando tudo que é tabu de corpo (menstruação, seios, mamilos, vagina, vulva, pelos, gravidez, útero, aborto, orgasmo, etc.) e transformando em narrativas visuais que sacralizam, desconstroem, incluem, empoderam, celebram, sambam na cara do patriarcado.

Entrevistei a artista, que está com uma exposição divina a partir do dia 04/09*, com a mão no coração. Espero que você se inspire e se atreva mais depois dessa viagem pelos jardins selvagens de Florido La.


“Corpoar II”

“Corpoar II”

1. Florido La: como surgiu esse nome, de onde você vem e para onde quer ir?

Florido é o meu sobrenome. Me chamo Priscila Florido. Como artista, de repente me vi sendo apenas Florido. Enfim. Acho que sou mais Florido do que Priscila. E o La do perfil pessoal no Facebook é a última sílaba do meu primeiro nome. La, lá longe, voando! Venho de São Paulo, passei dois anos morando em Porto Alegre produzindo muito, pesquisando muito, mas não tudo que eu gostaria e agora estou por aqui por SP, não sei por quanto tempo. Desejo viajar muito daqui pra frente, estou buscando caminhos. Quero levar a arte para onde for possível.

“Pele e Flor II”

“Pele e Flor II”

 2. Como e quando surgiu o tema feminino na sua arte? Em algum momento ele não existiu? Você se inspira nas mulheres da sua família, por exemplo?

Em meados de 2011 até 2012 tive uma grande crise, sobre o que, porquê e como eu vinha produzindo. Passei a me questionar sobre a importância da arte na minha vida e na vida das pessoas que era além do que eu estava criando naquele momento, onde havia um querer mais psicodélico. Não que ainda não haja essa influência, mas era como se eu tivesse que atravessar uma parede de vivências para poder expandir e ir além disso.

Consequentemente, após me envolver com muitos movimentos sociais de ocupação, marchas, enfim, eu me reaproximei com mais fervor pelo feminismo e, conforme os estudos seguiram, eu acabei chegando ao CORPO. E tudo era corpo. Me vi, de repente, lendo livros como Uma história do corpo na Idade Média, ou ainda, A história da sexualidade. Passei a escrever sobre isso, voltei a dançar e encontrei Judith Butler. Nesse momento, houve um grande boom e eu me via diante do “Eu corpo, que corpo é esse, quais suas performances e para onde vai ?”.

“Superfície e Desejo”

“Superfície e Desejo”

E balançava entre uma arte nomeada feminista e uma arte que queria falar de todos os corpos, fossem eles femininos ou não. Então, entendo que sim, há um aspecto feminino; no entanto estou criando meus próprios corpos perante uma sociedade, que me enxerga como uma mulher e nada além desse corpo-mulher.

Eu quero ir além dessa construção, não sei se consigo, mas acho que o mundo precisa mais dessa natureza, no sentido de biomas mesmo, que pode se encontrar no que eu faço e que talvez chamemos de feminino. Eu acho complexo, mas não me importo se essa é a leitura. Porque é a arte de uma pessoa que sangra mensalmente, que sofre assédios diariamente na rua, que precisa se impor mais em alguns momentos para ser ouvida. E que sim, as vezes é muito, muito mulher. Mas não só.

Pensei agora, continuando a sua questão, que também não faz muito tempo que percebi o quanto minhas principais referência familiares são mulheres. Com certeza me inspiram. No entanto, acho que é maior isso, o que me alimenta. Corpos e corpos, os quais fomos ensinados a pensar separadamente: mente, espírito, corpo, homem, mulher, velho, novo…. Eu não, eu quero juntar tudo e propor um retorno ao corpo. Selvagem, contemporâneo e tudo que ele pode ser.

“Meditação”

“Meditação”

3. Vejo abundância em tudo o que você pinta. Para mim, é como se fosse uma pintura ritual, de celebração. É isso mesmo?

Olha, eu gostei disso. Porque sim, o ritual está presente de forma forte, desde o momento em que se prepara para iniciar a produção e depois a ação, onde me sinto sempre em um estado alterado de consciência, que me permite uma meditação, criar outro tempo, extravasar o intelecto e o turbilhão de emoções em comunhão.

“Corpoar III”

“Corpoar III”

É racionalmente desvairado. É o corpo (risos). E penso que a arte, como já disse, tem poderes. Porque ela pode criar outros instantes, que é a natureza. E a natureza é abundante. Eu celebro a natureza e a cidade, o corpo e as minhas experiências para, depois, criar uma matéria de contemplação. Um esvaziamento de si que nunca é realmente vazio, mas que cria espaços para preencher de outros momentos. E a pintura, bem, ela pode criar isso, como quando sentamos para olhar o mar.

Acho que, nessa contemporaneidade em que vivemos, precisamos mais desse tempo. Desse despertar para observar, para silenciar a mente de uma outra forma que não é desligá-la também, mas que tem a ver com os olhos e o olhar e o gesto sem julgar, por sentir, por abrir-se para compor com essas paisagens da mente que a arte pode nos envolver. Isso é ritual.

“Busto entre flores”

“Busto entre flores”

4. Qual sua rotina criativa?

Posso dizer que estou pensando em arte o dia todo, o tempo inteiro. Qualquer detalhe pode me envolver e compor, com sentimentos criativos. Nem sempre consigo produzir diariamente. Mas como gosto de trabalhar com várias linguagens – sempre vou estar produzindo algo. Já que as linguagens proporcionam materialidades e tempos diferentes, como a foto da pintura por exemplo. Bem, a rotina criativa é estar viva e, então, outros entrelaçamentos vão se estendendo de mim e surgem essas outras coisas, que chamamos de arte.

“Fios do Pensamento I”

“Fios do Pensamento I”

5. Quais seus materiais favoritos?

Favorito é sempre algo difícil de dizer. Por muito tempo ouvi e talvez ainda escute algumas pessoas me dizerem que “temos que nos concentrar em uma única técnica para sermos realmente bons naquilo”. E bem, isso não me pertence. Porque me interessa explorar materiais. Hoje pode ser que tudo o que eu mais quero seja pintar a óleo mas, de repente, amanhã eu queira usar a caneta nessa mesma pintura, que na próxima semana eu posso ter encontrado um retalho bacana de tecido e quero costurar ainda nesse trabalho. Eu adoro tintas, canetas, tecidos, aquarela, cores, giz, manchas e camadas. E eles podem estar presentes no papel, na tela, no corpo, na dança e por aí vai.

Orgasmos

“Orgasmos”

6. Quais seus artistas favoritos de todos os tempos, quem te move?

Acho que eu poderia citar caras grandões e grandonas. Matisse, Basquiat, Mendieta. Mas são muitos, porque sou maníaca pelas artes, vou fundo e cada um mexe e me move de um jeito – sempre acabo deixando alguém de fora. E, com a internet, cada dia eu posso descobrir alguém que eu olho e digo: “Estamos falando da mesma coisa, mas eu estou aqui e elx na Bahia ou na Finlândia.”

Nem sempre quem me move é das artes visuais, pode ser lendo André Gide, assistindo Glauber Rocha, pesquisando os trabalhos de Anna Halprin, um vídeo antigo da Carmem Miranda, ouvindo Sister Carol, vibrando com as tirinhas da Laerte, encontrando artistas anônimos pelas ruas, pelos muros. Tanta coisa! E sinto que sempre falho nessa pergunta. Mas posso dizer de gente que está mais perto de mim e que vem me influenciando, como Antônio Augusto Bueno, artista Gaúcho cheio de sutilezas, as amigas artistas Gislaine Costa e Priscila Montania, o bailarino e coreógrafo Douglas Jung, o performer e diretor João de Ricardo, as poesias do Giovanni Bombagabe. Foram eles que me moveram muito nos últimos tempos.

Série “Pele, mapeamento das vivências III”

Série “Pele, mapeamento das vivências III”

7. O mundo melhorou para as mulheres?

Melhorou… bem, sou um pouco pessimista quando esse é o papo. Com certeza houve barreiras destruídas ou, pelo menos, passamos a pensar sobre elas. E nos unimos enquanto mulheres em alguns espaços. E teve e tem muita gente trabalhando para isso mas, ainda assim, o mar que vem contra as mulheres é muito maior. E para cada uma vem de um tamanho, se és negra, trans, pobre, prostituta, enfim. São séculos de tradições, de construções, do patriarcado e, embora haja detalhes melhorados (vamos dizer assim), ainda tem muito trabalho a ser feito. Ainda falamos pouco sobre privilégios com quem os tem, por exemplo.

Não desconstruímos quase nada nos ambientes escolares e todos são engolidos pela mídia vendendo e injetando em nossas mentes padrões, comportamentos, corpos, vidas, necessidades. Ainda não podemos andar tranquilas na rua. Temos relações baseadas em aparência, fragilidade, estereótipos. É muito maior do que ter o direito de votar ou ter o controle sobre a própria gravidez, que com certeza é importante, mas tem mais, muito mais a ser conquistado e não melhorou. Às vezes, parece um esforço enorme diante de uma multidão cega e surda e a gente grita, nossos corpos gritam, queremos nos libertar.

É como se houvesse uma raiz e fosse preciso cavar muito, com muito esforço, para chegar. E nunca chegamos ao ponto primeiro. Esse binarismo, que é compulsório, que vai de cores a formas de como nos relacionamos com as pessoas: isso é sufocante é violento e não tem medida que defina o ponto da onde começa e para onde vai. Só penso que devemos incluir a todos nessa luta e que ela vai do micro ao macro e vice-versa. É diário, precisamos falar, necessitamos reconhecer que existe esse lugar de violência e que pode estar mais próximo do que imaginamos, que é bem complicado. Que mata.

“No Coração Reside o Amor”

“No Coração Reside o Amor”

8. Quais seus planos para conquistar o mundo?

Ir de encontro a ele e chamá-lo para bailar.

 


*Exposição Aspecto Florido

Quando: de 04 a 25 de setembro.
Onde: Galeria Sede, em Campinas.

 

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