Eu não caibo mais

A coluna Visibilidades é publicada semanalmente às sextas.

ATENÇÃO: Esse texto pode conter gatilhos se você tiver alguma disfunção de autoimagem ou distúrbio alimentar. Não é minha intenção corroborar a gordofobia, pelo contrário.

“Eu não caibo mais nas roupas que eu tinha/ Eu não encho mais a casa de alegria” – Eu não vou me adaptar, Titãs

Quinta-feira passada foi meu aniversário e domingo fui à casa dos meu pais. Talvez eu já devesse ter aprendido a não criar tanta expectativa sobre presentes mas, sim, com vinte e cinco anos nas costas eu ainda as tenho. Eu juro pra vocês que eu espero pelo dia em que eu serei surpreendida com um vale-tatuagem, uma pilha de livros que está na minha lista de desejos ou uma roupa que caiba.

Graffiti da artista plástica Negahamburguer

Graffiti da artista plástica Negahamburguer. Imagem: divulgação

Eu ganhei uma bota, um pijama e uma bata boho, presentes da minha avó. A última coisa que eu sou na vida é boho. Eu não sou boho, eu até posso ser “gótica suave” ou normcore, mas boho? Acho que não. Mas vesti a bata para agradar vovó Ilda. Para minha surpresa, a peça ficou apertadíssima nos meus peitos tamanho 48D.

Então, fui com ela para trocar a bata. A loja era dentro de uma galeria – pequena e com pouquíssimas peças. Entramos e pedi para ver se tinha algo do meu tamanho. Nas araras, vasculhei as peças em busca de algo que me agradasse, sem sucesso. A vendedora, enfim, me aborda:

“Qual o tipo de roupa que você gosta?”

“Gosto das básicas, sem aplicações e com cortes simples”

A moça me apresenta uns vinte modelos. O mais simples tinha aquelas pedrinhas nas costas e diante de uma negativa minha, a moça me sugeriu os shorts. Perguntei se tinha tamanho 46.

“Não, só tenho essa bermuda 44.”

Obviamente que aquele manequim 44 não é o mesmo tamanho do 44 que eu estou acostumada e sei que serve em mim. Disse que era pequeno e ela insistiu que eu provasse. Não provei. Eu já estava no meu limite, segurando o choro, com uma pílula amarga atravessada na garganta e com a mandíbula travada de nervoso.

 

Comprar roupas sempre foi torturante para mim, eu brigo com a minha imagem no espelho desde muito pequena, quando puseram na minha cabeça que não era bonito ser gorda, que não era aceitável. Quando segui a minha primeira dieta na vida, nem era alfabetizada.

Nunca tive muitas roupas no armário e só fazia compras quando a minha mãe me obrigava, simplesmente porque eu não tinha mais o que vestir. Não porque não tínhamos condições de comprar, mas porque sempre foi difícil me olhar nua num espelho com luz direta e passar pela angústia de descobrir que algo não vai ficar bom no corpo.

Lembro-me com clareza de quando eu vesti uma calça 46 pela primeira vez. Olhei em prantos para a minha mãe e a questionei “Por que você deixou ISSO acontecer comigo?”.

“Você gosta de calça?”, já sem a mesma paciência porque era um domingo, e eu estava a quase meia hora na loja, sem demonstrar interesse algum por nada.

“Gosto, tem 46?”

“Só tem 44, moça, mas esse modelo é tipo boyfriend, é mais larguinho”

Olhei a calça, medi a cintura a olho: “Não acho que vá servir”. Levei a calça para o provador e  assim que eu soube que não passaria das coxas eu desabei, abaixei a guarda e chorei.

Chorei.

Chorei tanto que a minha avó nem precisou pedir que devolvesse o dinheiro da compra. A moça deu na hora, sem mencionar qualquer sinal de empatia.

Graffiti da artista plástica Negahamburguer

Graffiti da artista plástica Negahamburguer. Imagem: divulgação

A culpa não foi da minha avó. A vendedora se desdobrou, também não foi culpa dela.

Mas a minha autoestima ruiu. Senti que todo o meu trabalho de aceitação foi pro lixo, voltei pra casa dos meus pais odiando cada centímetro que impediu que coubesse algo daquela loja em mim, mesmo que eu não tenha achado nenhuma peça interessante. A vontade era de passar fome até eu deixar de ocupar tanto espaço, mas fui recebida com deliciosas lasanhas.

Graffiti da artista plástica Negahamburguer

Graffiti da artista plástica Negahamburguer. Imagem: divulgação

Não fomos educadas(os) a aceitar nossos corpos, mas a perseguir de maneira insalubre um ideal impossível. Um deslize e eu beijo a lona, mas citando um dos meu filmes motivacionais favoritos da vida, Rocky – Um lutador:

“Não importa o quanto você bate, mas sim o quanto aguenta apanhar e continuar”.

 

Comentários

Comentários

Gio Sacche. Cabelo verde e uma salada de sentimentos. Bi, ciclista wannabe e gateira.
  • Rafaela Silva

    Nos últimos tempos tenho pensando muito nisso. Sou magra, mas a idade está chegando e a barriguinha, que antes era uma tábua, hoje mostra uma simpática curvatura e um fofinho que eu gosto de apertar (tem outras pessoas que gostam também). O que acontece é que essa barriga fofa apareceu e me incomodou (e incomodou mais ainda porque me repreendi por me importar com algo superficial como o tamanho da minha barriga). Outro dia vi o instagram da Lena Dunham, e uma luzinha se acendeu. A Lena Dunham postar foto de lingerie mesmo não tendo o corpo que dizem que devemos ter, pra mim, é a epítome da representatividade! Hoje amo meu corpo porque consegui perceber que ele é perfeito, faz tudo que deveria fazer, e faz muito bem. Acho que tão importante quanto falar sobre aceitação é falar sobre as dificuldades desse caminho, como você fez. Stay fabulous!