O medo nosso de cada dia, nas ruas e na internet

A coluna De Humano para Humano é publicada semanalmente às quartas.

by_priscilla_rattazzi_1982_

“Você não precisa ser bonita. Você não deve beleza a ninguém. Não deve isso ao seu namorado/esposo/parceiro, não deve sua beleza aos seus colegas de trabalho, e muito menos a um homem qualquer passando na rua. Você não deve nada à sua mãe, nem aos seus filhos, nem à civilização em geral. Beleza não é um aluguel que você paga por ocupar o espaço marcado como “mulher”. Diana Vreeland

[Para minhas amigas e amigues.]

A mesma pulsão social que alija, aliena, isola, compacta, esconde, remove, desempodera, dá sumiço, oprime, cospe; a mesma pulsão, carnifica*, materializa, reifica (do latim res, “coisa”). Na experiência urbana, quase sempre me sinto entre duas situações extremas. Ou invisível, mesclada pela multidão, apagada pela minha idade (não, os 30 não são os novos 20 de jeito nenhum, darling baby), minoritizada na minha condição de mulher-cis; ou muito presente, materializada na impotência da minha objetificação com um cortante “ai, lá em casa!”, ou “gostosa!” seguido de uma chupada vulpina de dentes. O medo nosso de cada dia.

Ano passado me descontrolei e quase bati em um entregador de panfletos na esquina da minha casa. Isso não pode acontecer, porque 1. não sei nada sobre defesa pessoal; 2. você nunca sabe a força do outro e nem se a pessoa está armada ou não; 3. a depender do resultado, você pode parar da delegacia – e não queremos sujar nossa ficha com a cara imunda de um desconhecido qualquer, não é mesmo? Me contentei em gritar muito com ele até que o sujeitinho fosse engolido pelo chão, de tão rápido que foi seu sumiço. Minha cunhada morreu de rir, mas me apoiou. Seguimos para casa com o frango de domingo e uma historinha para contar: como eu me envolvi numa situação de risco porque eu sou mulher e estava acompanhada de outra mulher e um sujeito se achou no poder e direito de nos dizer o que bem entendia.

Na internet não é muito diferente. Sinto que a coisa vai ficando sem esperanças. Se você quer conversar e seu interlocutor for um homem-hetero-cis, os relatos que ouço e leio das amigas é de uma operação corriqueira no alucinante binarismo ou, ou: ou ele vai conversar muito com você falando sobre si mesmo, se autoelogiando e gastando o seu tempo para falar como ele é foda – ou contar o quão para baixo ele está e como precisa dos seus sábios conselhos – ou ele não vai desistir das baratíssimas falas de autoafirmação, fingindo que está muito feliz por você existir, como sua malhação está dando certo, como você está gostosa e por aí vai rio abaixo. Aquela conversa sobre um seriado que parece pertinente aos seus estudos do mestrado, no qual ele é especialista, acaba de falecer horrivelmente. Uma enxurrada de desrespeito vai prosseguir como uma corrente incontrolável.

Provavelmente, esse poder do interlocutor foi deliberado por outras mulheres/pessoas/aliens que fizeram concessões anteriores. Provavelmente, as concessões foram feitas lá no bercinho mesmo. A pessoa pode até saber que você é casada, intelectualizada, etc. A tendência desse perfil é manobrar até rolar uma troca de nude. Parece uma alucinação. O efeito desse tipo de conversa no meu organismo é: estou sendo agredida em todas as variáveis possíveis do meu conjunto de carbono e no meu éter também, provavelmente até na quinta dimensão tem alguém me agredindo, lá no mundo bizarro tem um cara quadrado com cara de quadrado falando merda quadrada pra mim.

Agredida na minha inteligência, no meu estatuto de ser humano, no meu potencial dialógico, enfim, na imaterialidade da internet, eu me sinto um verdadeiro nada. De repente, aquela pessoa com quem você precisava trocar mensagens de trabalho ou com quem você conversava na infância-adolescência, aquela pessoa que já chorou no seu ombro, contando as piores lamentações, que precisou de você num momento de extrema vulnerabilidade, agora está ótimo e resolve transformar você em um acessório automático para punheta. Claro, isso existe em qualquer configuração, você pode ser um homem-gay-cis, você pode ser a Laerte, e se identificar com meu texto, fique à vontade para se sentir desempoderado também por pessoas que não conseguem controlar seus impulsos sexuais porque se sentem protegidos pela internet.

MILHARES de pessoas fazem sexo virtual e são felizes. Traindo ou não, é o lance dessas pessoas. Eu não estou falando disso, do delicioso e tesudo mundo do sexo virtual consensual. Estou falando de ter a confiança traída, de ser desrespeitada via condição única de ser mulher (ou sujeito LGBTQ em uma condição de minoritização) e me cuidar (eu malho e gosto de me vestir bem e de me maquiar, é ritual, genuíno e celebrativo e ninguém tem nada com isso).

Mas voltando ao assunto. O próprio discurso do interlocutor agressivo é, muitas vezes e inicialmente, uma abordagem elogiosa aos seus atributos. “Que cabelo bonito”, “Que roupa bonita”, “Que boca bonita que eu quero beijar”, OU SEJA, se ele está fora de controle com as mensagens, a culpa, implícita e explicitada neste contrato, é SUA, mesmo que a adesão e a assinatura sejam só dele. Você endossa se continuar o papo.

Na internet, pelo menos, temos como cair fora. É só desligar o celular ou o computador, bloquear a pessoa, repreender (o melhor é excluir e bloquear mesmo, porque tudo pode ser manipulado para ser culpa sua no final das contas, aliás tem um texto ótimo com dicas do que fazer juridicamente em caso de dar merda). Por padrão, o comportamento é: você tenta conversar por 5 minutos algo sério. É desrespeitada. Chama a atenção para isso. A pessoa pede desculpas. Você muda de assunto. A pessoa pergunta por que você mudou de assunto e força a conversa triste sobre como ela quer pegar você e fazer isso e aquilo com você. E você não tem o menor interesse nisso. Em nada disso. Aquela pessoa em quem você confiava e/ou que você tinha qualquer outro interesse que não o sexual, parece que foi embora, se transforma em outra pessoa. Se isso fosse materializado, teríamos uma cena inicial de estupro.

É difícil falar sobre isso: quando paramos para falar temos a tendência de lembrar muito vivamente de todas essas situações de vulnerabilidade de uma vez só e isso dói. Ou, pior ainda, a gente se pergunta se não foi mesmo culpa nossa, se não fomos muito lenientes, a gente cai na armadilha e absorve toda culpa que nos ensinaram a ter desde meninas (“Tira essa mão daí, menina!”, “Puxa essa saia pra baixo, olha o pedreiro!” e etc.).

Mas estou escrevendo tudo isso porque hoje me deparei com essa imagem no Face de uma amiga:

iamgem de Feminismo Sem Demagogia Original

Imagem postada pela comunidade do Facebook “Feminismo Sem Demagogia – Original”.

O nosso maior medo é mesmo esse. Mas eu quero salientar de que ele não acontece somente na materialidade das ruas ou de um lugar físico qualquer. A violência sexual acontece e, muitas vezes, se inicia verbalmente. Nas ruas. No escritório. Na reunião de família.

O que determina essa violência? Invasão, desrespeito aos limites do outro, insistir no SIM quando a pessoa já disse NÃO, seguir e perseguir, assediar. Você, numa posição “inferior”, sendo subjugada(o) e humilhada(o) por uma pessoa em quem você confiava e/ou desconhecia mas que estava ali em seu convívio social aparentemente pacífico. Isso todo mundo já sabe. As mulheres sabem mais, desculpa eu te dizer isso, mas quem mais entende de desempoderamento e perseguição em qualquer instância e análise combinatória é uma mulher e/ou indivídua(o) em situação de mulher em sua identidade.

No vídeo a seguir, você terá a oportunidade de ver – e recordar, claro – como é essa humilhação que muitas mulheres, e incluo as pessoas trans, sempre e novamente, sofrem cotidianamente, sem intervalos, em qualquer trajeto que percorram pelas ruas do nosso priapíssimo país:

É forte e doloroso assistir a essas cenas que a corajosa editora-chefe, portanto, “mulher intelectualizada”, produziu para podermos discutir sobre isso abertamente na internet. Hoje eu quis usar o espaço da minha coluna, que tem por nome De Humano para Humano, para podermos refletir sobre a nossa humanidade hoje. Nossas fronteiras, os limites dos nossos corpos e mentes, das nossas emoções. Tudo isso porque, semana que vem, eu quero falar sobre algo bem mais leve e que tem a ver com isso. Mas, por hoje, quero que você pense na sua própria agressividade e na agressividade dos outros. Quando você humilha e é humilhada(o). Sobre seus limites. Sobre como você pode ter sido agredida(o) e achou que era carinho ou que a culpa era sua por ter exercitado sua liberdade de expressão/de ser sem se preocupar com a esquizofrenia violência intitulamento pobreza de educação do outro.

Empodere suas amigas. Não duas. Várias. Quantas você quiser. Diga: amiga, a culpa não é sua. Compartilhe esse texto, esse vídeo, essa matéria sobre o vídeo. Discuta, reflita, remova concessões, retire permissões, exclua, bloqueie.

 


* Eu amo um dicionário, amiga!

car·ni·fi·ca·ção (carnificar + -ção)
substantivo feminino
[Medicina]  Alteração mórbida de tecidos que tomam o aspecto da carne.
“carnificação”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/carnifica%c3%a7%c3%a3o [consultado em 26-08-2015].

Comentários

Comentários

ACT Redação é o seu robô preferido.
  • Pedro Reis

    Tá MUITO LÚCIDA e muito bonita essa iniciativa de vocês! Parabéns demais e, Carol: belíssimo texto e citando Vreeland ainda <3

    • http://ernestodiniz.com Ernesto Diniz

      Por isso, Pedro, que é mega importante desconstruir a própria ideia de “minoria”. Sempre bato na tecla que a “maioria” é uma construção discursiva escrota. As realidades formam-se ao redor de inúmeras “minorias” que englobam todos. Somos uma complexidade de gostos, momentos, identidades e posicionamentos. A minoritização que Carol cita no texto é esse movimento: é o esforço constante de uma entidade inventada “maioria” com agendas determinadas por interesses de uma “minoria” ainda “menor”, se é que você me entende.

      • Pedro Reis

        Bravo! Exatamente. Eu sou o cara mais chato pra “conceitos”, agora quando entramos em “termos”, porram, como gostam de achar cabelo em ovo e a gente parece estar, por mais consciente, constantemente cometendo “gafes” (coloco aspas pq, olha, se não colocar nem passa pela cabeça de algumas pessoas realmente problematizar conceitos e termos). Gostei do texto porque ele vai na veia que estava conversando com uma grande amiga, que está fazendo seu doc na Espanha sobre movimentos sociais e feminismo: eu e ela conversávamos sobre como “sendo intersec ou rad” tem certas coisas que simplesmente se tornaram impraticáveis em termos de feminismo (e, na verdade, até em termos de teorização e vivência de construção de identidade mesmo, não precisa nem ser de gênero). Isso que tu falou sobre “construção de minorias e maiorias” é uma dessas coisas, e, bá, muita sincronização de pensamento, pq é inclusive exatamente sobre o que estou escrevendo (com objeto os protestos desde 2013 e sob a categoria de artifício: o artifício que é usava, pela mídia, pelas pessoas inclusive envolvidas nos protestos em criar uma ‘maioria’ e uma ‘minoria’ e inclusive um artifício de (re)criação do próprio conceito de engajamento). Eu sofri um “bullying” (na falta de termo melhor) tremendo nos últimos dias de meninas (digo assim pro serem bem jovens) sem nenhum engajamento, sem nenhuma reflexão (e na boa, sem nenhuma vivência real) que afirmavam ser impossível um “hétero-branco-cis” ter qualquer forma de engajamento com “feminismo ou questões de gênero”. Cara, é tudo uma construção. Estamos aqui pra fazer o mundo melhor, ou para parafrasear a Bell Hooks: faz muito pouco sentido buscar igualdade para as mulheres se os Homens (no sentido de Humanidade) não vivenciam igualdade.

        • http://acoisatoda.com/ Miag

          Pedro, serei sucinta: qualquer engajamento para ajudar, qualquer partícula de educação com relação ao feminismo sendo uma “disciplina da igualdade entre todas as identidades de gênero” [que é nisso que eu acredito, na verdade], uma disciplina da inclusão e do respeito, do amor, qualquer partícula de diálogo, articulação inclusiva, é bem-vinda. Em termos de sofrimento, só as mulheres – ou os sujeitos identificados como femininos – vão saber o que é. É isso, precisamos de falas claras, simples diretas, objetivas, que propaguem o respeito. Beijos e muito obrigada pelas leituras e considerações.

          • Pedro Reis

            Bravo 2! Mais uma prova da lucidez absurda da iniciativa de vocês me alinho exatamente com isso e adicionaria apenas o que venho fazendo: pro “outro” desse que se identifica como mulher saber o sofrimento, só tem um jeito: a “mulher”, nesse sentido amplo tendo VOZ. E acho que essa iniciativa de vocês todos é exatamente isso. Adoro e keep up the AWESOME work.