Mulheres de Ouro que não entraram pra História

klimtalteradoooo

Estreou recentemente nos cinemas brasileiros o filme britânico A Dama Dourada (Woman in Gold), dirigido por Simon Curtis e estrelado por Helen Mirren. A película é baseada na história real de Maria Altmann, sobrevivente da ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial que entra em conflito judicial com o governo austríaco para recuperar o quadro Woman in Gold, de Gustav Klimt. O quadro, que é uma representação de sua tia, foi roubado pelos nazistas e permanecia na Áustria desde então.

O filme é bom nos aspectos técnicos, traz boas atuações – especialmente de Helen – e deve marcar presença nas principais premiações do cinema, como o Oscar. A História da confecção do quadro Woman in Gold é abordada rapidamente no filme, com Klimt executando a pintura encomendada pela rica família judia de Adele Bloch-Bauer, com detalhes em ouro e técnicas de pintura ousadas para a época. Fica clara, no filme, a importância histórica da obra, considerada a “Mona Lisa da Áustria”.

Maria Altmann e o famoso quadro Woman in Gold (1907), de Gustav Klimt

Maria Altmann e o famoso quadro Woman in Gold (1907), de Gustav Klimt.

Mas, por trás desse quadro, bem como das outras obras de Klimt, há histórias que nem sempre são contadas. Estamos falando de Emilie Flöge, mulher e musa de Klimt. Emilie era designer, costureira e mulher de negócios, que administrou, juntamente com sua irmã, uma maison em Viena. Seu gosto refinado e incomum de Moda a colocava como uma figura à frente do seu tempo, assim como foi sua contemporânea Coco Chanel. Muitas das silhuetas de seus looks apareceram em passarelas somente décadas mais tarde.

Seus vestidos, mais largos e sem espartilhos – já refletindo uma tendência boho e boêmia que foi aceita plenamente na década de 70 – não vendiam bem, justamente por serem muito avançados para a estética da época. Entretanto, Klimt soube aproveitar-se da rebeldia de Emilie e retratou suas estampas e modelos em quadros, como o famoso Woman in Gold. Klimt fez muito sucesso com suas obras e foi reverenciado por seu estilo inovador de pintura.

Emilie com alguns de seus icônicos e revolucionários vestidos, e ao centro o retrato da amada pintado por Klimt (1902)

Emilie com alguns de seus icônicos e revolucionários vestidos. Ao centro, o retrato da amada pintado por Klimt (1902).

Doze anos mais velho (ele enamorou-se de Emilie quando ela tinha entre 17 e 18 anos) e de vida bem mais boêmia (teve catorze filhos com diferentes mulheres durante seu casamento), Klimt deixou metade de sua fortuna para a esposa – e metade para o restante dos familiares. Os vestidos de Emilie foram perdidos em um grande incêndio em sua casa no final da Segunda Guerra Mundial e seu nome nunca ganhou o mesmo destaque que o do marido nos livros de Arte.

Há um ditado popular que diz que por trás de um grande homem sempre há uma grande mulher. Como a maioria dos ditos populares, este é construído sobre as bases do senso comum.  Na maioria dos casos, essa visão da realidade é rasa e problemática e, se refletirmos sobre esse ditado, entenderemos como funcionam alguns dos privilégios da sociedade em que vivemos.

Na frase mencionada, tanto homens como mulheres são considerados como ‘grandes’, mas só o homem está à frente, em evidência. À mulher resta o papel de ajudante, de coadjuvante, a que está por trás do sucesso do homem, servindo de escada para que este chegue ao topo. A Moda, que é, ao mesmo tempo, produto e produtora da cultura dominante, acompanha essa tendência.

Emilie Floge foi a responsável por boa parte da estética adotada por Klimt, mas quanta divulgação tiveram seu nome e seu legado? Sua visão de Moda estava bem à frente do seu tempo e antecipava ideias e silhuetas que ganhariam as passarelas décadas adiante; entretanto, Emilie carregava o estigma de ‘estranha’ em sua época, enquanto o companheiro Klimt era aplaudido por suas técnicas inovadoras e pela vanguarda na pintura.

Até os dias de hoje, as mulheres sofrem com a ‘patrulha da Moda’, que julga como adequado ou não o que estão vestindo. Não pode usar roupa curta, porque se usar está pedindo pra ser assediada. Não pode ter nenhuma gordura ‘sobrando’ e, se tiver, é melhor cobrir (de preferência com uma túnica bem longa e preta). Roupa justa no trabalho? Deve estar dormindo com o chefe. Não corresponde às expectativas sociais de se apresentar sempre impecável e maquiada? Desleixada, por isso nunca vai arrumar ou manter um marido!

A mulher ainda é tão cerceada na expressão da sua individualidade por meio do vestuário, que o maior risco (talvez o único) dos homens virarem motivo de chacota pelo que estiverem vestindo é se escolherem alguma peça que seja interpretada socialmente como ‘feminina’. Se usarem roupas justas, ok. Se estiverem desleixados, ok, homem é assim mesmo. Sem camisa e de bermuda por causa do calor? Ok, nada demais. Mas se estiverem usando algo ‘feminino’… é ‘veadinho’, ‘pegou no guarda-roupa da patroa?’, ‘onde comprou não tinha pra homem?’.

Até hoje existem muitas mulheres submetidas a relacionamentos abusivos (não dá pra afirmar categoricamente que o relacionamento de Klimt e Emilie era abusivo, mas há grandes indícios para acreditarmos que era) somente porque aprenderam que não são capazes de escreverem sua História e que devem ser suporte do sucesso do companheiro. Afinal, meninos que quebram regras e propõem novas propostas criativas são vanguarda como Klimt; meninas que fazem o mesmo são rebeldes e tidas como ‘estranhas’, exatamente como Emilie foi vista pela sociedade da época.

Que a História contada nos livros seja mais colorida e diversificada, porque não são apenas homens que escrevem essa História. Por trás de um grande homem, sempre há um sistema de hegemonias naturalizadas. É da personagem de Adele Bloch-Bauer I (a tal mulher de ouro do quadro de Klimt), a fala mais emblemática do filme A Dama Dourada: “Imagino como será ser uma mulher quando se é mais velha. Se teremos que nos contentar em nos divertirmos com trivialidades…”

Comentários

Comentários

Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.