Pare de transformar imbecis em celebridades

A coluna Bicha, melhore é publicada quinzenalmente às terças.

Levy Fidelix

Imagem: reprodução Youtube

Aquele pastor/deputado/subcelebridade machistinha e homofobicozinho publicou alguma coisa ME SEGURA EU PRECISO RESPONDER!!! Não, miga. Você não precisa. Antes, entenda como as coisas funcionam.

Sabe aquela frase “no futuro, todos terão quinze minutos de fama”? Não é vinheta de fim de ano da TV Globo, mas o futuro já começou. Qualquer pessoa, graças a cliques, retweets e compartilhamentos, pode virar uma celebridadezinha. E existe uma fórmula bem simples pra chocar e conquistar popularidade: basta ser polemiquinho e irritar uma minoria.

Nós, minorias, já somos sacaneados pela vida desde o nascimento. Natural que a gente reaja com força quando vê algum absurdo. É um instinto de sobrevivência. É completamente normal e aceitável. Mas, o efeito colateral, em tempos de sociedade da informação, é a criação de uma horda de imbecis que se juntam só pra ver o circo pegar fogo.

Quer alguns exemplos? Na última eleição presidencial, um candidato soltou uma centena de impropérios durante um debate. Coisas como “órgão excretor não reproduz” e daí pra baixo. Resultado: o bigodudo passou de um eterno nanico inexpressivo para um sujeito que angariou mais de meio milhão de votos.

Um pastor bilionário, que até bem pouco tempo só tinha espaço na TV quando comprava-o com dinheiro de seus fiéis, virou celebridade do Twitter. Logo em seguida, fez algumas participações em programas como SuperPop e, agora, é cotidianamente convidado para falar suas asneiras em Comissões da Câmara e figurar em programas de TV de grande audiência.

Isso sem falar daquele viúvo-da-ditadura que, depois de fazer o mesmo caminho do pastor bilionário, tornou-se o deputado federal mais votado do estado do Rio de Janeiro.

Sabe o que os três tem em comum? Nosso ódio, nossos compartilhamentos, nossa vontade de fazer justiça.

Entenda uma coisa, bicha amiga: nada no mundo junta mais as pessoas que ódio em comum.

É claro que é um absurdo esse tipo de gente ter espaço pra falar essas asneiras mas, pior ainda, é a gente dar espaço pra isso reverberar. Entenda que essa gente VIVE de polêmica, vive de se aproveitar da nossa fragilidade para sobreviver. Cada vez que você vê uma titica dessas e compartilha de forma indignada, o número de pageviews do cara dispara, ele ganha mais seguidores e todo trabalho de desconstrução nosso de cada dia vai pro ralo. E o pior: ele ganha dinheiro. Sim, dá pra ganhar (muito) dinheiro falando as barbaridades que essa gente solta por aí. E a nossa indignação é uma mina de ouro pra esse povo.

Lembro que, há uns anos, um colunista daquela revista-panfleto da direita escreveu um texto comparando gays a brócolis, dizendo que você tinha o direito de gostar ou não. Em questão de segundos surgiu uma ideia jeniau de protesto: queimar revistas na porta da editora. Sim, a ideia do povo era ir até a banca de jornal, COMPRAR A REVISTA, dar dinheiro pra editora que chamou viado de brócolis, só pra queimar. Não era mais fácil boicotar a revista? Não é mais efetivo nunca mais citar ou entrar no site da dita cuja e mexer no bolso da empresa?

Ah, então eu vou ouvir essas merdas e ficar quieto? Sim, vai. É duro, é ruim, é difícil, mas é necessário. O ostracismo é o pior castigo para essa gente. Tudo que eles não querem é o esquecimento. E é justamente por isso que são sempre os mesmos babacas que disparam suas metralhadoras de preconceito e ódio. Nós vivemos num mundo capitalista e todos somos garotas materialistas. Inclusive essa gentinha. A forma mais eficaz de fazer pressão é com dinheiro, ou melhor, com a falta de dinheiro. Essa gente só vai aprender quando a fonte secar.

Então, miga, aprenda: na próxima polemiquinha vazia de gente preconceituosa, ignore. Dê o ostracismo que a pessoa merece. E compartilhe boas iniciativas, espalhe amor, faça a diferença mostrando que somos exatamente o oposto dessa gente. Apenas não alimente os animais.

Comentários

Comentários

João Marcio era hétero até ganhar o CD das Spice Girls com 11 anos. Trabalha com Mídias Sociais, é militante e trabalhou no projeto "Diversidade Sexual na Escola", da UFRJ. Quando criança, achava que não era gay porque nunca tinha visto um gordo viado. Até que um dia viu o Leão Lobo na TV e a cabeça entrou em parafuso.
  • Denis Pessoa

    PERFEITO! É o que eu sempre recomendo! Tava faltando alguém pra dizer isso de forma lúcida e clara. Arrasou!

  • http://ernestodiniz.com Ernesto Diniz

    O resumo de todo flamer: “O ostracismo é o pior castigo para essa gente”. Simplesmente ignorar; é a melhor coisa! Parabéns pelo texto, adorei.

    • Pedro Reis

      Parabéns ao texto e parabéns ao comentário! “Ignorar”

  • Ronaldo Cardoso

    Hmmm sei não viu

  • Conde Suassuna

    Vou tentar, mas é tão difícil!!! Kkkk