Bifobia existe sim

A coluna Ai que aBIsurdo! é publicada semanalmente às segundas.

Bifobia

Arte do tumblr “I want to ride my BIcycle”

Na estreia da coluna Ai que aBIsurdo! falei um pouco sobre o apagamento bissexual na televisão, em especial nas telenovelas brasileiras. Puxando esse gancho, hoje vou abordar um assunto relacionado e tão complicado quanto: a bifobia.

Bifobia* é o termo que usamos para descrever a aversão e a discriminação contra pessoas bissexuais. Essa “fobia” envolve o apagamento, a hostilidade e a reprovação de comportamentos referentes à bissexualidade. Tudo isso, no entanto, não passa de puro e simples preconceito (acompanhado de um tanto de ignorância).

“Ah mas é exagero chamar de ‘fobia’ já que um bissexual não apanha na rua por ser bi, mas sim por ser visto como gay ou lésbica”. Até existe uma verdade nesse pensamento; a pessoa bissexual não apanha por aí por estar acompanhada de um parceiro de outro sexo ou  “aparentar” heterossexual. E, como não existe isso de “parecer gay” ou “parecer lésbica” (isso seria homofobia e lesbofobia, não?), também não existe isso de “parecer bissexual”, oras. E mais, uma opressão não é caracterizada apenas pelo fator “apanhar na rua”. Existem “n” consequências de um preconceito opressor e negar a existência da bifobia é, por si só, bifóbico.

Arte de Bruna Morgan, da página "Universo em bolha de tinta"

Arte de Bruna Morgan, da página “Universo em bolha de tinta”

É bifobia SIM estereotipar bissexuais

Vai dizer que nunca ouviu falarem por aí que mulheres bissexuais são promíscuas, traidoras, indecisas, problemáticas? Ou que nunca ouviu que um homem bissexual é, no fundo, um gay enrustido?

O estereótipo, infelizmente, vai bastante além de julgamentos rasos como esses. Por exemplo, você sabia que mulheres bissexuais constam em peso na taxa mundial de pessoas com transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade e distúrbios alimentares? Google it! Mulheres bissexuais também sofrem com um tipo mais constante de violência psicológica por parte de parceiros e, infelizmente, também de parceiras. Assume-se que, quando em uma relação com outra mulher, ela sentirá falta do genital masculino e acabará traindo a parceira, como se as bissexuais fossem animais viscerais sem coração e sem senso de compromisso. Já quando em relações com homens, é comum que a mulher seja vista como “troféu” e constantemente seja usada para realizar as fantasias sexuais do parceiro, mesmo que ela não se sinta confortável com a ideia. Afinal, toda bissexual é safada, não é mesmo?

Além disso, uma coisa que particularmente me deixa muito, mas muito chateada e ofendida, é saber que existem muitas mulheres lésbicas que se recusam a se envolver com mulheres bissexuais (seja apenas física ou também emocionalmente falando), só pelo fato delas serem bissexuais. Não é porque não bateu química, ou, sei lá, porque os mapas astrais não são compatíveis (rs). Existe um senso comum bastante equivocado e preconceituoso que imagina a mulher bi como uma potencial transmissora de doenças, como se a gente não usasse camisinha e não fôssemos responsáveis, sexualmente falando. Sem falar no (pre)conceito já mencionado acima – de que a mulher bi necessariamente vai sentir saudades de fazer sexo com homens e acabará traindo a parceira.

É bifobia SIM negar a existência da bissexualidade

Existem muitas pessoas (e pessoas jovens, teoricamente “bem informadas”) que não acreditam que um ser humano seja capaz de sentir atração por algum gênero além do oposto ou de seu próprio. Não conseguem conceber a ideia de que uma pessoa pode ora se interessar por um homem, ora por uma mulher, ora por não binário, ou por uma pessoa agênera. Não entendem que, para muitos de nós, o gênero não faz diferença na hora do interesse físico ou amoroso. A impressão que nós bissexuais temos, muitas vezes, é que, para pessoas hetero-cis, “aceitar” a existência e a convivência com homossexuais já foi o suficiente, mas bissexual já é bagunça. E infelizmente, essa negação da nossa sexualidade também acontece (e muito!) no meio gay/lésbico.

Do you like boys OR girls? Yes.

Você, boy que frequenta baladas gays, sério mesmo que nunca ficou passada, ou nunca viu algum colega surpreso ao ver aquele cara lindo dando uns beijos em uma mulher? Bissexual, gatos! Você, sapa que costuma ir a festinhas das minas, nunca olhou feio ou nunca viu alguma colega olhando feio para a amiga que acabou indo acompanhada de um homem? Bissexual, gatas!

E sim, é bifobia deslegitimar a visibilidade bi, como se chamar atenção para as questões da letra B do LGBTQX automaticamente apagasse a luta das demais

Essa sigla (cada vez abrangendo mais e mais identidades e orientações) existe para que a gente se una na luta pela visibilidade e aceitação na sociedade. Admitir que a transfobia existe, por exemplo, não diminui de forma alguma a legítima luta contra a homofobia. Da mesma forma que, dar voz a pessoas bissexuais, não faz da lesbofobia uma prática menos absurda. Juntos, somos mais fortes!

Negar que bifobia existe é reforçar o preconceito que sofremos diariamente.

Um beijo e até a próxima!


*Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bifobia

 

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Patricia Gnipper é redatora, fotógrafa e crazy cat lady, além de bissexual assumidíssima.