Audrey Hepburn e o perigo da “mulher-mito”

São muitas as referências de Moda que Audrey Hepburn deixou através das telas do cinema. Um dos exemplos mais marcantes da estética new look de Christian Dior (que consiste em cintura marcada, busto natural e saias rodadas longas), Audrey foi descrita por David Thomson no livro The New Biographical Dictionary of Film como a inspiração de “uma geração de mulheres magras, sem seios e de classe alta”.  Até hoje, são organizados eventos e exposições que celebram a figura de Audrey na Moda e no Cinema (esse aqui, por exemplo).

O vestido longo preto e branco de Sabrina (1954), o longo vermelho esvoaçante de Funny Face (1957), o vestido preto tubinho de Breakfast at Tiffany's (1961) e o look preto e branco de My fair Lady (1964): figurinos que habitam nosso cardápio de referências de Moda.

O vestido longo preto e branco de Sabrina (1954), o longo vermelho esvoaçante de Funny Face (1957), o vestido preto tubinho de Breakfast at Tiffany’s (1961) e o look preto e branco de My fair Lady (1964): figurinos que habitam nosso cardápio de referências de Moda.

Musa do hypado fotógrafo Richard Avedon e amiga pessoal de Hubert de Givenchy, Audrey construiu uma sólida e premiada carreira no cinema, fazendo parte de um seleto grupo de artistas que conseguiu ganhar o Emmy, o Grammy, o Oscar e o Tony, os principais prêmios da indústria do entretenimento. Mas é justo julgar Audrey só pela sua imagem nas telas?

Por trás do ícone, há uma mulher. Ainda criança, enfrentou o abandono do pai e a recusa da professora de balé em torná-la uma prima ballerina por considerá-la sem talento o suficiente para tal função, o que não a fez desistir do amor pela arte da dança. Durante a Segunda Guerra Mundial, fugiu pra Holanda com a mãe, mas logo teve de enfrentar a invasão nazista no país e ver vários membros de sua família serem mortos. Ainda muito jovem, foi membro ativo da Resistência, fez espetáculos de dança clandestinos pra angariar fundos e abrigar garotas refugiadas em sua casa, além de levar recados políticos escondidos dentro das sapatilhas de dança.

Enfrentou a fome e a privação de direitos humanos básicos nesse período, se alimentando de tulipas e até de grama. Enquanto não tinha forças sequer pra dançar, desenhava figuras e imaginava tempos mais felizes. Argumenta-se, inclusive, que sua magreza excessiva (49 kg distribuídos em 1,70m de altura) seja característica das condições adversas da fome e frio sofridos nesse período. Essas intempéries podem ter debilitado sua saúde e causado problemas respiratórios, anemia e doenças no sangue, levando a uma morte prematura aos 63 anos, vítima de um câncer agressivo no cólon.

Além da sempre ativa participação política, Audrey foi nomeada Embaixadora Internacional da UNICEF, e viajou por mais de 20 países alertando governantes e a mídia sobre a situação de famílias vivendo em pobreza extrema e vítimas de calamidades. Até hoje, mais de vinte anos depois de sua morte, a fundação de Hepburn continua desenvolvendo vários projetos voltados pra crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social.

A Audrey que poucos conhecem: a menina que dança resistindo ao nazismo (1942), em conferência na ONU (1989), como embaixadora da UNICEF (1987-1993) e exibindo sinais de envelhecimento com orgulho durante os anos 90.

Audrey que poucos conhecem: a menina que dança resistindo ao nazismo (1942), em conferência na ONU (1989), como embaixadora da UNICEF (1987-1993) e exibindo sinais de envelhecimento com orgulho durante os anos 90.

Mas esse texto pretende ser mais do que uma simples biografia de uma chamada Diva: esse texto é sobre política (e por que não, sobre feminismo*?). Sobre como percebemos, ou somos levados a perceber, um ícone feminino. Audrey era magra em virtude da fome sofrida em tempos de guerra, mas ainda é considerada modelo de corpo para muitas mulheres até hoje. Audrey vestiu-se de maneira simples e andou por muito tempo entre os que mal tinham o que vestir, mas são os vestidos de grife que cobriram a figura de suas personagens por alguns instantes que povoam nosso imaginário. Audrey envelheceu, de maneira até precoce, inclusive.  Mas sua pele clara e sedosa dos tempos da juventude estampam suas imagens mais marcantes divulgadas até hoje pela cultura pop.

Luca Dotti, filho de Hepburn, certa vez declarou em uma carta aberta que “Desde o começo da sua carreira e através de todas as suas maravilhosas conquistas, minha mãe nunca entendeu exatamente o que as pessoas viam nela. Beleza, graça e estilo eram coisas que ela admirava no mundo, mas que não conseguia associar à imagem de si mesma. E ser tratada como um objeto inanimado, como na clássica definição do que seria um ícone, a deixaria ainda mais chocada. Um símbolo não ri nem chora, não canta e nem beija e foi pra isso que ela viveu, no final das contas” (tradução livre).

Não é difícil entender o que a mídia fez com a figura de Audrey, ou porque a transformou em ícone. Se fizermos uma análise um pouco mais profunda, veremos que todas as mulheres estão sujeitas a se tornarem ícones na sociedade patriarcal e machista em que vivemos. Nada mais doutrinador para as gerações seguintes, especialmente para uma geração de meninas, do que transformar alguns exemplos de mulheres em ícones, em espelhos a serem seguidos.

No mundo em que vivemos, desde muito cedo, meninas são incentivadas a não se envolverem politicamente. Elas devem se preocupar em serem bonitas antes de terem algo a dizer. Meninas devem usar roupas adequadas e comportarem-se de maneira adequada enquanto estiverem usando essas roupas (como sentar-se de pernas fechadas quando usarem um vestido, não desarrumar demais o cabelo ou sujar os sapatos brilhantes). Mulheres devem ser magras; mesmo que as proporções de seus corpos prejudiquem sua saúde, o importante é ter uma cintura fina para apertar com um cinto e arrasar no new look Dior.

Mulheres não devem envelhecer; antes, devem cuidar pra que rugas e marcas de expressão não surjam nunca. O ideal é que aparentem ter vinte anos aos vinte, aos trinta, aos quarenta e se possível, aos cinquenta. E, por mais que sejam educadas a servirem e serem boas com os menos afortunados, seu papel político se resume mais ao aprendizado da caridade do que na tomada de posição na luta política por condições mais igualitárias.

Audrey não era a alpinista social que só vestia preto e só conhece o amor através da figura de um homem, nem a princesa entediada que tem novas experiências na cidade na garupa da moto de um homem, nem a ignorante que se torna uma lady através das mãos de um verdadeiro homem. Tampouco era a intelectual que troca tudo o que é para se tornar uma modelo de sucesso e se casar com um… homem (notam o padrão?).  Audrey era uma mulher completa com muitas vivências e com muito a dizer, mas que foi eternizada como uma boneca pelos homens que sempre dominaram a indústria da Moda e do Cinema.

Não há nada de errado em admirar lindos vestidos e cenários bem montados. Nem em tirar uma tarde livre e derreter-se com comédias românticas nada realistas dos anos 50-60, enquanto devoramos uma panela de brigadeiro e lamentamos muito no Twitter. O que devemos evitar é esvaziar uma pessoa de sua humanidade e riqueza intelectual pra torná-la um ícone, porque ícones não são pessoas de verdade.

Ícones são figuras de opressão e entraves para a diversidade e (r)evolução femininas. Por trás da sociedade que cria o estereótipo de uma boneca de luxo, há uma rede patriarcal interessada em fazer com que todas as outras mulheres se sintam inadequadas, e assim a roda machista continua girando…

 

* Nota do autor: Como homem cis, não almejo um lugar de protagonismo e voz dentro do(s) movimento(s) feminista(s), nem incorrer em silenciamento de mulheres. Entretanto, acredito que o texto incentiva a reflexão e troca de ideias, não sendo conclusivo e fechado a novos conceitos e vozes, sob nenhum aspecto.

Comentários

Comentários

Marco Magoga é amante da Moda, casado com as Artes, em processo de divórcio com o senso comum.