O apagamento bissexual nas telenovelas

aBIsurdo: Clara e Marina

A coluna a[BI]surdo é publicada semanalmente às segundas.

Quantas vezes você já viu personagens declaradamente bissexuais na TV, você se lembra? Se lembrar de alguns, então, me diga: quantos desses foram retratados como seres humanos normais (que são), em vez de estereotipados? Difícil, né? E com o tema do apagamento bissexual na TV, estreamos a coluna Ai que aBIsurdo!, que semanalmente trará o debate sobre assuntos referentes ao universo da letra B da sigla LGBTQX.

Lá fora, nomes de peso da mídia como Anna Paquin, Iggy Pop, Megan Fox, Lady Gaga, Drew Barrymore, David Bowie, Alanis Morissette, Billie Joe Armstrong e Angelina Jolie já declararam publicamente sua bissexualidade. Por aqui, Sidney Magal, Preta Gil, Claudia Jimenez, Ana Carolina, José de Abreu e Walcyr Carrasco são algumas das personalidades que já falaram abertamente sobre sua sexualidade mais, digamos, abrangente. Mas, mesmo com tanta representatividade, a bissexualidade ainda é tratada como um tabu na maioria dos filmes, séries e novelas a que assistimos.

É importante explicar que ser bissexual não significa gostar somente do seu gênero e do gênero oposto, como consta no imaginário popular. Bissexualidade é a orientação sexual que define quem é capaz de nutrir sentimentos amorosos e/ou se atrair fisicamente por pessoas de qualquer gênero. Bi, no sentido de: o seu gênero e outro. Então, podemos classificar como bissexual a mulher cis que se atrai por outras mulheres e por homens, a pessoa trans que sente desejo por pessoas de qualquer gênero ou a pessoa não-binária que, apesar de preferir meninos, também fica com meninas.

Bandeira Bissexual

As cores da bandeira do Orgulho Bissexual

Agora que o conceito de bissexual ficou melhor explicado, vamos além e entremos na questão do apagamento. Como o nome já sugere, apagamento bissexual é o termo usado para explicar a invisibilidade das pessoas bissexuais na nossa sociedade.

Somos invisíveis, inexistentes, e, quando admitem nossa existência, normalmente nos definem de maneira preconceituosa, ignorante e estereotipada. Bissexual, “aquele cara que é gay mas é indeciso”. Bissexual, “aquela garota que é promíscua e traumatizada”.

Pessoas bi já cansaram de ouvir esses e outros absurdos referentes à nossa sexualidade, e, apesar de orientações sexuais diferentes da heterossexualidade já serem “melhor” aceitas na mídia, como a televisão, por exemplo, ainda temos muita luta pela frente para sermos reconhecidos como somos: seres humanos, dignos de respeito e reconhecimento.

Ano passado fomos surpreendidos pela declaração de Clara, da novela Em Família, transmitida pela Globo em horário nobre. A personagem vivida por Giovanna Antonelli desabafou com sua mãe, Chica (Natália do Vale), sobre sua sexualidade. Ao ser questionada sobre estar se relacionando com outra mulher escondida do marido Cadú (Reynaldo Gianechini), Clara contou: “Não quero um só, quero os dois. E, quando estou com um, sinto falta do outro. Estou dividida, querendo os dois com o mesmo desejo”.

Mesmo que ser bissexual não signifique desejar homens e mulheres simultaneamente, a surpresa geral ficou por conta da palavra bissexual ter sido usada explicitamente, sem julgamentos e sem amarras pela personagem, na novela de maior audiência da emissora na época. Isso porque, normalmente, os personagens bi são tratados com um olhar patologizante, ou ainda, são completamente distorcidos, sendo tratados como homossexuais indecisos ou heterossexuais confusos.

Clara Marina e Cadu Em Familia

Clara, Marina e Cadú, personagens que viveram um triângulo amoroso em Em Família

Em uma novela anterior da mesma emissora, Amor à Vida, a “bicha má” Félix (Mateus Solano) vivia um casamento heterossexual, mas se dividia entre sua relação estável com a personagem de Bárbara Paz e sua paixão avassaladora por Niko (Thiago Fragoso). O capítulo final trouxe o tão aguardado – e aclamado – beijo gay à telinha global. Tudo muito bom, tudo muito bem mas, em nenhum momento, houve o questionamento sobre a possibilidade de Félix ser, na verdade, bissexual. Por conta de seus trejeitos “afeminados” (entre aspas mesmo) e seu desejo por outro homem, Félix foi imediatamente lido como um homem homossexual, mesmo tendo deixado claro, em mais de um episódio, o quanto gostava, afetivamente falando, de sua esposa.

Na mesma trama, Niko vivia uma relação anterior com o discreto Eron, personagem bissexual de Marcelo Anthony. Durante as gravações, o ator “causou” afirmando em entrevistas que “todo bissexual, no fundo, é homossexual”, dando um show de ignorância e preconceito em relação ao assunto.

Eron Niko e Felix Amor à Vida

Eron, Niko e Félix, de Amor à Vida

O apagamento também foi forte nas cenas de Império, novela em que o bissexual assumido Cláudio (José Mayer), deveria ter atuado em uma cena de sexo a três com sua esposa interpretada por Suzy Rêgo e seu namorado. A segunda relação de Cláudio era conhecida e aprovada por sua esposa Beatriz e a emissora não somente perdeu uma ótima oportunidade para desmistificar um pouco o sexo a três, como poderia ter usado a situação para levantar a pauta dos relacionamentos poliamorosos. Enquanto cenas intensas de amor e sexo envolvendo um homem e uma mulher são amplamente aceitas, outras formas de amar permaneceram na gaveta.

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Cláudio e Léo, que viveram um relacionamento em “Império”

Já na principal novela da Globo em exibição atualmente, Babilônia, a possibilidade do debate a respeito da bissexualidade foi excluída, uma vez que o núcleo LGBTQ da produção se resume à relação lésbica entre duas senhoras idosas, interpretadas pelas peso-pesado da teledramaturgia brasileira, Nathália Timberg e Fernanda Montenegro. A restrição não parou por aí, uma vez que a emissora cortou cenas mais carinhosas entre o casal de mulheres para tentar manter a audiência, que veio despencando desde sua estreia.

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Teresa e Estela protagonizam o casal lésbico de Babilônia

Outra novela atual, Sete Vidas, traz Regina Duarte vivendo uma personagem homossexual assumida, mas que acaba se apaixonando por um homem, interpretado por Jonas Bloch. Diferentemente das declarações absurdas de Marcelo Anthony anos atrás, a “namoradinha do Brasil” afirmou que a homossexualidade faz parte da composição do ser humano e que a arte e a dramaturgia fazem o papel de educadoras, devendo colocar temas tabus em pauta. Em seguida, afirmou ser “potencialmente bissexual” com uma tendência mais forte à heterossexualidade, porém, sem negar a possibilidade de vivenciar uma relação com outra mulher.

Regina Duarte

Estela, que viverá romance com um homem em “Sete Vidas”, apesar de se declarar lésbica

Seguindo a tendência do debate saudável (assim esperamos!), a principal emissora da televisão aberta brasileira já anunciou que sua próxima trama das nove, A Regra do Jogo, trará um casal de mulheres, sendo umas delas bissexual. Enquanto Eduardo Moscovis viverá um “gay enrustido” (medo!), as jovens atrizes Giselle Batista e Júlia Rabelo viverão uma relação homoafetiva, sem deixar a bissexualidade em segundo plano.

Duda e Úrsula

Duda e Úrsula, o novo casal “polêmico” da próxima novela A Regra do Jogo

Ao que tudo indica a Globo tem saído na frente na questão da visibilidade, mesmo que ainda timidamente, enquanto emissoras concorrentes, como o SBT, ainda varrem a bissexualidade para debaixo do tapete, como aconteceu recentemente na releitura da novela mexicana Sortilégio. Nela, a rede de Silvio Santos cortou cenas e editou falas de dois personagens bissexuais, que vivem um romance secreto na versão original.

Para quem quiser se aprofundar um pouco mais no assunto, fica a dica de leitura: o livro Bicha (nem tão) má – LGBTs em novelas, escrito pela jornalista gaúcha Fernanda Nascimento. Ela explora a participação de personagens gays, lésbicas, bissexuais e transexuais nas telenovelas brasileiras.

Foto: Fernanda Nascimento

A jornalista Fernanda Nascimento posa com seu livro “Bicha (nem tão) má – LGBTs em novelas”, da Editora Multifoco/RJ

Até a próxima!

Comentários

Comentários

Patricia Gnipper é redatora, fotógrafa e crazy cat lady, além de bissexual assumidíssima.
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  • Cora Reynolds

    Só uma correção: José de Abreu se retratou algumas semanas depois de ter se dito bi, com a desculpinha esfarrapada de que havia sido “um posicionamento político” (não me lembro qual foi o contexto, mas ele se declarou bi durante uma discussão com alguém por motivos partidários e usou a suposta identidade bi como “carteirada”).

  • Rafaela Silva

    Halt and catch fire e broad city são duas séries americanas que tem personagens principais bissexuais. O que mais me chamou atenção foi o fato de nem mesmo ser uma questão, é mais como uma representação de uma orientação que deveria ser normal na sociedade. Não acompanhei se houve discussão a respeito, mas me parece que a TV americana, nesse quesito, esteja um pouquinho mais aberta a representar essas pessoas. Aproveito e indico as duas séries, são sensacionais! BTW, o personagem bi de HACF é o Lee Pace (Thranduil de O Hobbit) !!!

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