Meditação da Falsa Obrigação*

Foto: Meditação, por Carol Miag

A coluna De Humano para Humano é publicada semanalmente às quartas.

* (Para colar na geladeira ou deixar na cabeceira)

Comece sempre com a pergunta: Quem disse?

Eu sei, a gente nem lembra como tudo começou. A gente não faz ideia de a que horas nossos ombros ficaram maiores que os outros membros do corpo e passamos a carregar “pau de lata” sem nem ao menos um jegue pra dar uma força na lide com as cangalhas. Quando a gente viu, estavámos debaixo de sol quente carregando um mundo muito físico, dolorido e inibidor nas costas.

Só que um dia a gente tropeça, arrebenta com o dedão e grita. Grita pela dor e pelo ódio, só não sabemos do quê. E a cangalha cai dos nossos ombros. E a gente sai remexendo e gritando pra rapidinho recolocar o pau com as latas em perfeita simetria sobre os ombros e continuarmos nossa marcha. Só que a gente não consegue. Porque as latas foram enchendo no caminho, em nossos contatos com os outros humanos, tão diversos em suas humanidades. Como já estava tudo armado, acabamos não perdendo o equilíbrio e suportando tudo no caminhar. Mas, quando o dedão passou a nos doer, nesse sol, aí não tem equilíbrio certo. A gente mexe e remexe e a cangalha não volta a ficar certinha e a nossa marcha acaba capenga e muito mais estranha e desconfortável que antes. A cara da gente até afogueia de vergonha.

Vem aquele nó na garganta de ver alguns dos outros humanos tão soltinhos e sem nenhuma trouxinha pra carregar. Por que? Por que estou carregando isso? Que horas colocaram isso nos meus ombros?

Os ombros vão crescendo e o peito vai se curvando sobre o estômago. Acontece que o peito é a máquina do sentimento, enquanto o estômago é a usina do querer – embora eles briguem pra ver quem tem monopólio sobre o que, de vez em quando. Ao se aproximarem por causa da nossa má postura, aproveitam pra conversar e, chateados com o que estão passando, um fica descompassado enquanto o outro, acaba esburacado.

E continuamos capengando, em descompasso e dor.

Começamos a pensar: devia ter arrumado um jegue pra me ajudar com tudo isso.

O jegue, que não é bobo e escuta até telepatia, grita de lá:

“Humano, aprenda a enxergar. Eu, que ando de tapas nos olhos, enxergo mais que você. Olhe como você está todo desconjuntado e mal cuidado. Te prepara, porque a tendência é piorar. Que tal compartilhar? Respondendo à sua pergunta, quem quis carregar tudo isso foi você!”

O animal some no horizonte tremeluzente que o suor criou nos seus olhos. Decidimos:

“Vou largar tudo!”

Mas se largarmos, não vamos nos prejudicar?

Pensamos, pensamos muito. E nos perguntamos: quem disse que eu tenho que levar isso sozinho? Como tudo começou? Meu peito está cansado e meu estômago dói!

O jegue zune de lá: “ninguém disse, o pior é isso. Depois, eu que sou burro!”

Acabamos testando. No método há alguma loucura, afinal (e método na loucura, oh, Yorick!). Deixamos de fazer o mesmo trajeto de sempre, que fulano indicou. Paramos de lavar toda a louça no mesmo horário, como nos ensinaram. Largamos a faculdade que disseram que seria a melhor opção de carreira, já que o mercado precisa dessa determinada força de trabalho e vamos ficar ricos.

Demora um pouco, voltamos a caminhar um tanto mais seguros. O descompasso vai voltando a um ritmo mais afinado com coração e estômago, difundindo a energia como deveria ser: em equilíbrio.

Logo avistamos um grupo de humanos montados em alguns cavalos e sem cangalha pra carregar.

“Como faço pra ter um cavalo?”

“Simples. Desista de carregar tudo sozinho. Encontre um grupo bacana de amigos, que em breve se tornarão seus companheiros. Logo, você estará carregando somente o que quiser e o que é justo, transformando o que está na bagagem em força motriz para produzir o que sabe. Nessa lida, produzirá o que aprendeu a realmente amar, o que te importa e o que te inquieta. Passará por uma jornada de busca mas, sem a cangalha de inutilidades que você aceitou carregar, sua jornada será mais leve e mais promissora. Sua curiosidade vai aumentar: estar mais leve aguça os sentidos. Um belo dia, sozinho ou cercado de companheiros, você encontrará um cavalo para domar. É a prova final.”

O cavalo é o seu momento presente. Aproprie-se dele cada vez mais.

Viva a sua história.

Comentários

Comentários

ACT Redação é o seu robô preferido.
  • Léa Figueira Brandão

    Amei!!!”

    • http://acoisatoda.com/ Miag

      Obrigada, Léa! Os próximos textos já estão no forninho atômico! <3

  • Luciano Munhoz

    Why. So. Maravilhosa? <3

    • http://miag.art.br Miag

      Porque tenho amigos-leitores super-humanos feito você, Lu! <3

  • Isa

    wooow!!! 😀