8 coisas que definem a vida LGBTQX no Brasil

Nada como viver em um país com realidades tão diversificadas e com uma história tão cheia de nós e reviravoltas como o Brasil. E como define a vida de um LGBTQX no Brasil? No bom sentido e mau sentido? Nasci em 1978 e, desde então, vi minha condição de homem gay ser tratada pela população, pela imprensa e pelas forças políticas sempre de um jeito diferente. Imagina se eu dependesse disso pra viver. Na verdade, de um jeito ou de outro, eu dependo das impressões dos outros para viver. Elas definem o ecossistema onde vivo, as leis que me regem e com quem eu posso falar abertamente sobre quem sou, sem medo de levar uma lampadada da cabeça.

Tirei um tempo para listar oito “coisas” (fatos, ideias, questões, pessoas…) que marcaram muito meu imaginário nessa jornada de 36 anos. Convido vocês para contribuírem com mais, aí nos comentários.

1. David Harrah e Toni Reis

Residente em Curitiba, o casal tem um relacionamento longo com as autoridades brasileiras e, desde 1996, protagoniza batalhas legais. Primeiro, foi a luta para que David, que é de origem britânica, pudesse permanecer no Brasil legalmente. Isso teria sido resolvido facilmente se ele casasse com uma mulher brasileira. Na época, a mãe de Toni se ofereceu para casar com David, mas isso acabou não acontecendo. A questão só foi solucionada em 2005, quando o Conselho Nacional de Imigração decidiu conceder vistos a parceiros estrangeiros de cidadãos brasileiros, seja qual for o gênero de ambos. Em março de 2015, o casal obteve a autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para adotar filhos.

Confira abaixo uma matéria veiculada pelo Fantástico sobre o casal.

 

2. Artistas brasileiros gays

O Brasil adora seus artistas gays, mas não necessariamente lida bem com aqueles que resolvem falar a respeito disso. Cazuza, Renato Russo, Cássia Eller, Daniela Mercury, Ney Matogrosso, Ana Carolina… cada um que trouxe o assunto à tona foi recebido de um jeito: uns celebrados, outros desdenhados. Praticamente todos eles são objeto de fofoca venenosa, naquele estilo bem brasileiro que finge que não olha para os lados, mas que, no fundo, vive de espiar e comentar a vida alheia.

Nas conversas de família, a classe artística brasileira fomenta debates acalorados de “quem é e quem não é”. Traz para o dia-a-dia debates sobre identidade de gênero, sexualidade e diversidade comportamental que não penetrariam as paredes da sala de jantar se não fosse o alcance desses artistas.

 

3. Dramaturgia brasileira

O teatro de Zé Celso, os textos de Nelson Rodrigues e filmes como Praia do Futuro mostram como a diversidade sexual e de gênero é percebida nos quatro cantos do país e nos diferentes estratos sociais. As novelas são um bom termômetro de como essa percepção se transforma em reação. Em 1998, as personagens de Cristiane Torloni e Silvia Pfeiffer, que formavam um casal, foram varridas para baixo do tapete de Torre de Babel. Elas morreram, de repente, em uma cena de explosão que carecia de contexto. Depois da morte das lésbicas, a audiência da novela aumentou consideravelmente. Em 2015, Fernanda Montenegro e Nathalia Thimberg dividiram opiniões em “Babilônia”, com beijos gráficos e demonstrações explícitas de carinho. A novela sofreu boicote de grande parte dos espectadores.

Veja a fatídica cena de Torre de Babel:

 

4. Políticos pró e anti-LGBTQX

Nunca a vida LGBTQX esteve tão presente no noticiário político do Brasil, graças a gente como Jean Wyllys, Marta Suplicy e Iara Bernardi, autora da PL 122/2006, com a finalidade de criminalizar a homofobia no Brasil. A força contrária não deixa por menos. Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e seu filho lideram um numeroso grupo de políticos atuantes que lutam para anular conquistas LGBTQX, bem como para impedir que novas conquistas aconteçam. O projeto de Iara, por exemplo, foi arquivado.

 

5. Laerte Coutinho

Laerte existe em plenitude. Em 2009, revelou a amigos que sempre teve vontade de vestir-se de mulher e assim o fez, identificando-se primeiro como crossdresser e depois como mulher transgênero. Com a naturalidade de quem já maturou a questão o suficiente, Laerte vive como sempre quis, enfrenta situações desagradáveis, como acontece nos restaurantes que não querem deixá-lo usar o banheiro feminino, mas não está nem aí pra isso. Hoje com seu próprio programa de TV, no Canal Brasil, o cartunista está mais vivo que nunca, trazendo visibilidade a questões que afligem centenas de milhares de pessoas oprimidas pelo padrão heteronormativo.

Vá um pouco mais a fundo na história do Laerte nesta entrevista que ele deu para Marília Gabriela em 2013.

 

7. Acesso à Internet

Assumir-se dentro de casa pode ser bem mais difícil do que assumir-se fora de casa. YouTube, Facebook, Twitter e Instagram são confessionários a céu aberto e fazem que com que gente de todo o mundo encontre informação útil e converse sobre como é ser gay em Curitiba – um dos centros neonazistas do país -, São Paulo – cidade com a maior parada gay do mundo – e Kampala, Uganda – onde “gay bom é gay morto”.

 

8. Casamento igualitário no Brasil

Sim, eu posso casar no país em que nasci. Desde 2011, graças a uma decisão do SFT, estão equiparadas as uniões heterossexual e homossexual. O Conselho Nacional de Justiça lacrou de vez ao proibir qualquer cartório em território nacional a se recusar a celebrar o casamento de pessoas do mesmo sexo.

Então, pessoal. Essas são as 8 questões que mais me marcaram até hoje. Quais marcaram você? O que afeta sua realidade hoje no Brasil? Deixe um comentário abaixo, que a gente continua a conversa daí.

Comentários

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César Munhoz é co-fundador e criador do nome dx A Coisa Toda. Entertainer e comunicador, Xamã @ No Ordinary Ideas NYC SP CWB, Curador @ Radar 1 Minuto e o próprio MITOMANO.com . Gentil até segunda ordem. Instagram @cesarmunhoz
  • Bernadette Holvery

    Parabéns pelo site. Espero sempre vir aqui neste colored place pra saber do que acontece. Parabéns a todos do site. Vida longa ao acoisatoda.com!